11/30/2005
Trocando em Miúdos
Tateio com os olhos a boca que não é minha. Cheiro com as mãos o ventre que espera. Ouço o sabor do abraço. Enxergo a fluidez dos dias, das horas. Saboreio a intensidade dos perfumes das ruas pelas quais navego incerta.
21:00 Posted in Cinco Sentidos | Permalink | Comments (0) | Email this
Furacão Ausente
Eu pensava que paixões, sem exceção, fossem eletricidade.
Eu encomendava para mim pretendentes. Fazia planos, olhava calendários, escolhia, remendava danos. Inseria paixões em pessoas e pessoas onde não havia paixão. Eu assistia ao fim, determinava quais personagens estariam na tela do filme que eu queria rodar. Em curta ou longa metragem. Eu fazia os cortes cicatrizarem e dava de ombros aos cortes alheios. Eu pensava na eletricidade das paixões. Em 8 mm e grão numa imagem cinza em céu de Nova York num dia de novembro.
Eu pensava demais. Eletricidade.
Clarice Lispector foi a primeira a me dizer para viver: viver ultrapassa qualquer entendimento. Só que ninguém me deu uma bússula: quem poderia supor que meu coração podia se enganar. E que viver sem evocar o coração não é viver. Bússulas foram feitas para quem sabe onde quer chegar. E eu, ai de mim, não sei.
Eu não quero a entrega cega, mas quero o sabor das coisas por inteiro. Diminutivos e migalhas me fartam, logo de cara.
00:15 Permalink | Comments (0) | Email this
O que não fomos
Não fomos café da manhã aos domingos. Não fomos cinema vazio, sessão de cinema. Não fomos noites de amor. Não fomos passeio na beira do mar. Não fomos vento no Atlântico sul. Não fomos paciência. Não fomos sem pressa. Não fomos inverno, geada, cobertor de orelha. Não fomos asti gelada no Reveillon. Nem livro de presente de Natal. Não fomos discussões futebolísticas. Não fomos reticentes, evasivos. Não fomos mesquinhos. Não fomos menos.
00:10 Permalink | Comments (2) | Email this
11/29/2005
O Olhar cantado por Madredeus

Letra de Pedro Ayres Magalhães
Musica de José Peixoto
Olha para mim
Nos olhos
Agora
Olha para mim
Sereno
olhar
Anda ver aqui
Nos olhos
O mar
Olha para mim
Com o teu
Olhar
Vem partir na sensação
De que vamos viajar
Só nós dois na ilusão
De tanto amar
Vem daí com a tua mão
Que eu quero acarinhar
Vem contar-me essa visão
Do teu olhar
Imagem de Teresa Rosa, fisgado do Thousand Images
12:45 Posted in Music | Permalink | Comments (1) | Email this
11/27/2005
Como primavera

Ela sentia que precisava reviver o cheiro de primavera em sua longínqua cidade natal. Ela queria aquele céu de sempre. Aquele azul inconfundível, aqueles sons que só se faziam presente naquela cidade provinciana e acolhedora. Ela queria as flores, os pássaros, o burburinho das gentes, os cafés, o cheiro da comida ao meio-dia na Ramiro Barcelos. Ela sentia saudade: cortante. Ela sentia saudade: gelada. Ela inventara mil sinônimos para a mesma palavra. Ela sentia a mesma palavra todos os dias, ela sentia-se saudade. Ela queria estar lá. E desse desejo honesto, dessa urgência cheia de veias e pétalas, arrancou de si as frágeis raízes que já se haviam formado e rumou ao hemisfério sul. Já de início observou os sinais. Em sua chegada, o avião tornou-se um gigante a planar por cima de toda a cidade por uns bons quinze minutos. Ela nunca vira nada daquele jeito. Nem em outras primaveras. Aquilo fora um presente. Não era a pista de pouso que estava ocupada, não era o piloto que não havia conseguido permissão para aterrissar. Era um presente para ela. Só dela. Era um vôo feito a mão para ela, que não percebera antes o panorama elegante de sua cidade. Não havia visto os prédios assim delgados, de mãos dadas uns com os outros, do alto. Ela ainda não conhecia o delineado sutil dos morros vistos do alto. O coração tamborilante sabia: era um presente.
E depois outros presentes se seguiram. Perdas e enganos também.
O vazio do qual a Gláucia falou. Querida, eu não queria te transformar em personagem. Mas já estás aqui, ganhando contornos. E eu converso com "meus" personagens. Queria dizer-te que meus personagens, geralmente, não sabem do vazio. Eles passam por cima desse meu receio como se eu tivesse simplesmente o inventado. Mas tu, tu sabes que não é assim. Que o vazio existe sim, e que ele é vasto, ele é imenso, pesa e às vezes tem cor. E nos enreda numa rede mesquinha. E tu pareces saber que, ele - o vazio - nos suspende, nos engasga. Não há memória boa que o espante, não há filme que o aborreça.
Também deram continuidade a minha estada as memórias que foram atenuando-se. As fotografias em sépia que foram saindo do álbum. Outras que foram entrando.
De todos os presentes: ele. As ofertas que ele me fez com suas pequeninas mãos esquálidas. Ela nunca vira nada assim, nem em outras paixões. O olhar que se prendeu em mim e que viu meu avião partir, sem estar lá. Da sua janela ele pode ver aviões alçando vôo. Ele escolheu para nós dois uma canção. Duas, uma era. Ele me fez risco em superfície de gelo. Ele me fez patinar milhas até chegar ao céu. E eu me fiz, por mim e por ele, alma inédita. Envergadura de princesa. Olhos de menina, gosto de mulher.
17:50 Posted in De paixões e primaveras | Permalink | Comments (2) | Email this
Morte e Nascimento
E então todas as luzes estavam presentes e eu voei imensidão e mágoa, e uma dor antiga de não te ter e um sonho novo de te barrar da minha memória. E então...todos os laranjas eram cinzas e os sabores eram rotos de ti. (e quando, finalmente, te enterrei)
...eu chegava no meio do barulho, entre gentes e cores e despertares. eu o criava novo e o revia guri com a a cabeça no meu ombro e os seus lábios procurando os meus. E eu o abraçava com pressa porque eu tinha que ir, mas o queria mais, devagar e urgente, e mais de novo. E ele criou em mim borboletas que resplandeciam em minha barriga franzina e soprou em meus ouvidos as palavras que eu queria ouvir. E foi então que eu descobri que amar se aprende amando.
E que tu, já outro, eras parte do passado.
Escrito em Outubro de 2005.
17:13 Permalink | Comments (0) | Email this
COMPARTILHAR
a laranja
a estrada
o amor
a colheita
o sorriso
a espera
o leite
a jornada
o céu
a música
a respiração
o gozo
a ira
o profano
o sagrado
a comida
o chá
a inocência
o tesão
o verde
o oceano
a terra
a ânsia
o beijo
o sopro
o chinelo
a cama
a água
a espiritualidade
as mãos
a língua
os olhos
a saudade
a represa
o refúgio
o cantar
o querer
o navegar
Escrito em outubro de 2005.
11:48 Permalink | Comments (0) | Email this
Paixão e Primavera
Eles se viram e se verão poucas vezes. Numa travessa qualquer de uma rua do Cidade Baixa, com casas ainda em formato de casas da colônia portuguesa. Eles se beijaram como só podem beijar os que amam e voam demais. Eles se entregaram nos abraços, na língua, no suor. Eles se quiseram como somente querem os que vêm de longe. Eles sabiam daquele vazio anterior, sabiam do frio, da espera. Eles se viram quase nunca. Se conheceram por acaso, se olharam no escuro. Ela ainda se lembra do primeiro olhar no olho direito, o olho para o qual ela nunca olha. Ela viu a pupila grande, escura, dilatada. Ela se deitou gosto dele e amanheceu primavera e paixão.
Outubro de 2005.
11:47 Permalink | Comments (2) | Email this
11/21/2005
Polvo de Estrellas de Jorge Drexler
Se aprende en la escuela,
se olvida en la guerra,
un hijo te vuelve a enseñar.
Está en el espejo,
está en las trincheras, parece que nadie parece notar
Toda victoria es nada
Toda vida es sagrada
Un enjambre de moléculas
puestas de acuerdo
de forma provisional.
Un animal prodigioso
con la delirante obsesión de querer perdurar
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.
15:15 Posted in Music | Permalink | Comments (0) | Email this
Querer saber
Tu sempre tiveste a capacidade insana e quase cruel de colocar o dedo na ferida que eu te mostrava através de palavras. E, hoje, mais uma vez o fizeste. Tu queres a verdade. A verdade do sentimento, da oração não dita, do verbo que não intelectualiza, mas revela e fica na memória. Me perguntas: O quê podemos trocar?
E eu, ironicamente, já estava pronta para dizer que nossa história já tinha um epílogo. Fizera um mosaico das sensações e lembranças que se seguiram quando rumei ao norte. Te guardo em paz comigo, te tenho nas cenas dos filmes que criamos juntos. Para mim a vida ganha um novo sabor se tiver trilha sonora, se for mergulhada num filme bom, que a gente não esquece. O que eu posso te contar? Que queres ouvir de mim? Eu tenho que escolher, costurar as memórias de uma forma que sejam genuínas, e te ofertar. Nutrir sentimentos à distância é perigoso para uma pessoa como eu. Porque eu gosto de enfeitar, gosto de suspirar pela casa lembrando. Gosto de rever cenas de nós dois quando alguma coisa no meu cotidiano desperta uma lembrança.
Aos poucos, vou querendo contar-te que volta e meia o filme da gente me assalta, nas coisas do dia-a-dia, como te disse, nos meus pensamentos incoerentes, nas tentativas de me tornar mulher, nos filmes que assisto, nas canções que entram pela janela, ou que invadem a casa. Tenho acendido incensos, tenho lembrado, tenho sorrido por essas lembranças. Chorei ao rever um filme que adoro e que, de certo modo, muito me lembrou da nossa história, que é talvez menos pungente. Não que nossa história não tenha sido pungente. Mas não somos um ex-presidiário, nem uma garçonete que apanhou tanto que agora não pode mais ter filhos. Temos nossas marcas é verdade. Temos nossos fantasmas, mas também temos nossa luta, nosso refúgio, um ninho. E temos um ao outro, assim ao longe, como uma música que não se sabe de onde vem, nem para onde vai: permanece.
14:05 Posted in De paixões e primaveras | Permalink | Comments (2) | Email this