01/22/2006
Esconderijos
Nós nos escondemos aos poucos. Saindo para varandas. Nos desencontrando nas ruas, fazendo planos, fechando os olhos. Silenciando. Quebrando pratos e remendando os vestígios. Nos escondemos quando fazia frio do lado de fora e quando os sabores já não eram mais tão lentos e orgânicos. Escondemos as marcas e o que nos fazia sermos nós. Existíamos em baixo de pontes, sob céus de abril, embaixo de páginas de contos realistas que escrevias quando acordavas e te ressentias de estar só. E eu queria abrir janelas com minhas mãos, deixando pássaros e vozes e ventos nos arrebatar. Eu queria cotidiano exposto, circulante. Amor embaixo d'água. Sem esconderijos. Imagem: Sérgio, Underwater Love. Fonte: olhares.com
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01/16/2006
Para passar por ti
Para passar por ti sem um sorriso. E não deixar temblar coração. Te faço versos do lado de cá do mundo. E tu passas e são os olhos que temblam. Tíbios. Ressabiados. Para passar por ti, tive que ser muito eu. E contemplar muitos: oceanos, e despedir-me tantas. Para passar por ti, vislumbrei uma esperança que não havia. A lividez da solidão. A secura das esperas. Para passar por ti eu tive que me descobrir e revelar. E ensurdecer e me deixar levar.
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01/14/2006
Parte do meu léxico
Paixão
substantivo feminino (obviamente) 1. Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade. 2. Amor ardente. 3. Entusiasmo muito grande. 4. Atividade, hábito ou vício dominador. 5. O objeto da paixão. 6. Desgosto, mágoa. 7. Rel. O martírio de Cristo.Tu foste parte do meu léxico
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01/11/2006
Cortes e meninas
Foi só então que ela percebera estar cortada. Quando abriu os olhos e o viu indo, caminhando. O carro se deslocava e ela esperava pelo olhar derradeiro, aquele que se espera em toda despedida, mas daquela vez não houve. Houve apenas o som do motor na frente do parque, as buzinas, as luzes da sinaleira em uma alternância irritante. Ele foi-se com o mesmo semblante de quando a encontrava. sério. austero. e então eles atravessaram o túnel de solidões e dele não teve notícias. Aquela era a forma, entre tão escassas formas, de manter o que havia sido. Nos chamados seguintes ela soube que ele havia aportado com a mesma trilha sonora, os mesmos vernáculos. E ela se sabotava ainda. E embora soubesse que ele era uma quimera, quando pensava nele, ouvia sua voz dizendo-lhe que era menina, e recuperava um pouco da esperança. Pois meninas podem inventar, correr para abraçar, ter tremeliques, podem ser mimadas. Meninas podem sorrir inquietas e deixar correr as mãos pelo corpo-marzipã-verde e dizer bobagens ao pé do ouvido. Meninas estão sempre renascendo e inventando jardins e alamedas. Não há inferno, nem cortes, nem rupturas. Há sabores e vertentes. Percepção de estrada se alongando. Primaveras longas. Paixões libertadas.
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01/08/2006
O céus daqui
Faróis de lá. Céus daqui. Palavras do além-mar. Palavras que nos enviamos para estreitar laços. O dito sentido. O sentimento passado, presente. As visões de mundo caladas e com voz. As dores pintadas. Fotografias da alma trocadas, desarrumadas. Tu trazes tuas mãos, teus olhos e eu te entrego um sorriso e a minha caixa de fotos em preto e branco. Mais faróis para libertar o coração e ditar o caminho do encontro. Quando vocês aportaram em mim, eu não tinha farol e não sabia para onde mirar. O foco do meu olhar estava difuso entre horas e cafés de final de noite. Os faróis que eu via eram miragens. Imaginem que essa nuvem no céu de Hopper sou eu chegando mais perto da luz que vocês me trazem. E eu, abrindo asas, minhas asas de céu as envolvo com carinho que não respeita nenhuma geografia, nenhuma milhagem. Não, eu não posso voar. Mas abraço vocês de longe, com minhas asas feitas de nuvens de um céu aguado, rasgado de saudade de faróis que ainda não vi com os olhos de fora.
Para as Margaridas e Elis.
Imagem: The Lighthouse at Two Lights, 1929
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01/07/2006
Mersa
Dicen que viajando se fortalece el corazón
pues andar nuevos caminos
te hace olvidar el anterior
Ojalá que esto pronto suceda,
así podrá descansar mi pena
hasta la próxima vez
Y así encuentras una paloma herida
que te cuenta su poesía de haber amado
y quebrantado otra ilusión
Seguro que al rato estará volando,
inventando otra esperanza
para volver a vivir
Creo que nadie puede dar una respuesta
ni decir que puerta hay que tocar
Creo que a pesar de tanta melancolía,
tanta pena y tanta herida,
sólo se trata de vivir
En mi almanaque hay una fecha vacía,
es la del día que dijiste que tenías que partir
Debes andar por nuevos caminos
para descansar la pena hasta la próxima vez
Seguro que al rato estarás amando,
inventando otra esperanza para volver a vivir
Creo que nadie puede dar una respuesta
ni decir que puerta hay que tocar
Creo que a pesar de tanta melancolía,
tanta pena y tanta herida,
sólo se trata de vivir
Dicen que viajando se fortalece el corazón
pues andar nuevos caminos
te hace olvidar el anterior
Ojalá que esto pronto suceda,
así podrá descansar mi pena
hasta la próxima vez
Seguro que al rato estaré volando,
inventando otra esperanza para volver a vivir
Creo que nadie puede dar una respuesta
ni decir que puerta hay que tocar
Creo que a pesar de tanta melancolía,
tanta pena y tanta herida,
sólo se trata de vivir
12:59 Permalink | Comments (1) | Email this
01/05/2006
Reviravoltas
Reviramos nossas casas em busca de rastros. Havia estado ali um amor grande, espesso. Desses sentidos de longe, mesmo com milhas nos separando. Reviramos a casa procurando algo maior, mais intenso. Procuramos um ao outro tantas vezes, em primaveras que se seguiram e se ausentaram. Equilibramos tantos sonhos no parapeito da vida. Abrimos as janelas e observamos os pássaros. Em busca de respostas, sinais. Os rastros que não encontrávamos na casa que havia estado cheia. Repleta. De alguma forma espantamos o amor, o conforto, a certeza. Tomamos rumos diferentes. A paixão se esvaiu.
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01/04/2006
Inventando
Eu te inventei de tantas formas e sob tantos pretextos. Te inventei amante. Amigo. O liso do papel. A chama. Te inventei nas palavras, nos chamados e nas ausências. Te inventei memória. Saudade. Não há formas novas de inventar. E tu terás me inventado? Agora me inventas esquecimento. Recados que não chegam. Janelas e portas fechadas.
Te inventei páginas de livros. Poemas de Florbela Espanca. Te inventei visitas a comunidades gregas. Te inventei o grito na janela com o rosto ao vento. Te inventei brumas de mim. Manhãs de inverno. Latência. E tu terás me inventado? Como? De que forma, em que espaço de ti, com que saudade? Intenso. Cálido? De verdade?
Eu te quero agora: homem. Toque, pulsante. Eu te desinventei paixão. Te desinventei distante. Te desinventei vidro. E tu me desinventaste do avesso. Sem chamamentos. Sem negas de céu, pedaços de sol. Só. Não há forma nova de te inventar. Silêncio. A candura do beijo que se desfez. O adeus tosco. O não-estar. Te desinventei céu de primavera. Canção de espera: barco no ancoradouro.

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01/03/2006
Compassos
Estivemos no compasso certo. Éramos eu e tu a cantarolar perto da janela. Nenhum de nós estava atrasado. Era eu quem deslizava para a ida, assim como os aviões subiam ao céu indo e indo para longe. Estávamos nós. E não havia nota mal entoada. Éramos deslize como tudo que não cabe na fotografia do tempo. Estivemos no hemisfério errado. Fomos a primavera bela e cheia de cores que só há em setembros ventios e quentes. Encobrias minhas mãos nas tuas, que embora pequenas, eram de oferta. Catarolávamos melodias primaveris e claras. Fomos compasso certo. Nos olhamos entrega pela última vez e fomos espelho. Ali sou-be que tínhamos o olhar gêmeo. Nossa cumplicidade não estava dispersada nos almoços, nas caminhadas, nos compassos dos dias e esquadros das horas. Éramos por termos íris -irmãs. Éramos por termos a mesma melancolia que se aninha no ventre e que pesa. Éramos porque fomos o que tínhamos para ser. Chatas a correr rio carregadas de ouro. Deslizando paixão.
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