04/30/2006

Tradução

Entre revelar um segredo e outro: tradução. Tradução de. Rutilâncias. Quando é mesmo que eu costuro teus beijos com os meus? Quando foi que parti? Sei que estava frio e que não havia ânsia. Era uma calma quase sutil, não fosse minha pressa de ir embora. Não fosse que tinhas algo para dizer. Não fosse aquele último segundo, aquele último aceno quando me virei para ti e já não. O pó.

Traduzi saudade. Traduzi estar só. Eu que não falava uma palavra sequer desses idiomas. Eu que era analfabeta de estar sem ti. Aprendi o beabá da solidão e todos os seus silêncios e ostracismos. Voltei, me redimi. Sei mais de um idioma. Abraço a liberdade. Ao som de minha nudez diante do mundo: ar puro.

Ária I - Concerto em direção ao mar

Ouça Amor Demais - Elis Regina.

Eu inventei um mundo e uma mentira. Um contexto para que a gente exista, para que o caminho para o mar seja concerto. Ainda que cega e de pés descalços. Ainda que calada. Até que sejamos mar. Agridoce.

Ainda que caminhe um futuro incerto, uma intensa fusão sensorial me prende e me leva adiante. As paisagens de Cézanne me fazem encontrar o mar. E em (teus braços) concerto. O salino me fecunda. E a espera sem fim é em compasso com teu ritmo. De estar e ser concerto em direção mar.

 

04/24/2006

Nossas vidas imaginárias por Gláucia

Presumo que ficar vermelha e bobinha me autoriza a postar teu comentário.

 

medium_my_life_without_me.jpgSe escreve do que não foi dito, do que não foi feito, do que não foi tocado, do que não foi e, de outro modo, foi, no vasto terreno dos nossos sonhos. Gláucia Retamozo

Imagem: My Life Without Me. 

04/23/2006

Difusionismo

medium_chagall-eda-okada.2.jpgDentro do mar

Onírico e sem síntese

O meu beijo difusionista

encontra o teu

e de todo aquele céu e todo aquele

azul ainda intenso

nascem sonhos

para desabrochar

mini rosas

mini ventos

Uma dança no céu

mergulho

nas estrelas

vertigens

Imagem de Marc Chagall

Eda-Okada

 

04/18/2006

Eu deveria

Ter estado com a minha caneta na mao ontem a noite. Pois as frases delineavam memorias e eu bebericava dos sons. E eu nao conseguia dormir. No bairro o silencio pacato, o vento de sempre. E eu, atordoada, na cama com tantos sons. E a velocidade impressa na boca marfim de saudade, eu mais corpo que qualquer outra coisa. Corpo que mexeu-se e as cinco da manha, enlouquecido, comecou a caminhar. Sem nada na mao para escrever, eu apenas repeti para mim que a estoria se escreve no que nao foi dito. Foi por isso que, quando te deixei, nao houve adeus. 

04/16/2006

Zelosa espera

Acabo de navegar

tua espera

Zelando por ti e por tuas vindas,

sonhando rodopios

amando o silêncio e te descobrindo

no acenos poéticos e distantes

Na estada e na ausência zelo (verbo)

para acomodar conosco as marés

e as brisas que encrespam as águas

Turbilhões abraçados em zelosas esperas

paladar salgado às pressas

entre ondas e solfejos.

Mares viscosos, esperas. E eu a ti

(?)

Cacoetes, esquisitices, manias...

Finalmente depois de protelar por dias e dias, me deixei arrebatar. Não foi uma vontade imensa de contar cinco esquisitices minhas que me levou a escrevê-las, mas simplesmente o fato de que não consigo parar de pensar que não posso deixar de comparecer quando quem solicita, é uma das Margaridas mais lindas que eu (ainda) não vi.

 

Eu escuto música enquanto estou dormindo. No Brasil era o rádio, aqui em Pleasantville é o meu iPOD. Já descobri muita música boa por causa disso. Aliás foi assim que descobri o trabalho de um dos meus compositores favoritos. A voz dele me arrebatou numa madrugada de fim-de-verão em Porto Alegre.

Ainda não abandonei a idéia de querer ser um poema, uma canção, ou um livro. Acho que seria muito mais interessante fazer parte da vida de várias pessoas, e de certa forma, uni-las sem que elas soubessem. Imagina, eu poderia acompanhar o café da manhã de alguém em alguma das cidades que eu tanto gosto ou em algum recanto inusitado qualquer do mundo. Seria como congelar a mente de alguém por um instante. Criar impacto. Poderia ser um poema genial escrito de madrugada por alguém que fora inspirado por outra pessoa ou por circunstâncias nada corriqueiras. Ou poderia ainda ter sido o resultado de uma busca de anos, de uma idéia permanente, de um sonho perene.

Tenho mania por cheiros. Cheiro de pessoas, cheiro de lugares. Cheiro de livros. Eu farejo tudo. Adorava caminhar por Porto Alegre na hora do meio-dia. Cada apartamento exalava um cheiro de almoço diferente.

Para mim Porto Alegre tem cheiros diferentes em cada estação e isso também se aplica aos turnos do dia. Os bairros também tem seus aromas particulares. Descobri-los me alegra. Lembrá-los me deixa nostálgica.

 

Minha curiosidade por pessoas tambem e uma mania. Eu gosto de saber dos outros, gosto de mergulhar na visão daqueles que esbarram em mim por aí. Não faço isso por ser metida, mas para também tentar me entender melhor. As impressões de alguém são importantes para eu tentar aprimorar minha percepcão do mundo. Não que não existam outras formas de fazer isso, de aprimorar nossa visão de mundo... Mas acho mais interessante quando ouço de alguém como foi ter estado no mar mediterrâneo, que cores haviam lá, as sensações únicas sentidas naqueles momentos.

Eu não edito o que escrevo e para mim escrever também é um processo de auto-conhecimento. O que eu registro é franco. Não se mascara, nem se quer bonito. Eu leio tudo que escrevo em voz alta e pontuo de acordo com minha interpretação. Sou essencialmente não-linear e existe sempre um certo caos me invadindo, não há rotina para escrever, há apenas minha voz e uma torrente.

Dificilmente me atenho ao que me pedem para fazer, por isso, acabo de violar a regra do jogo em que dizia para citar cinco manias. Acho que extrapolei o limite.

 

 

E acho que a validade deste post está vencida, mas pelo sim pelo não, está indo ao ar.

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04/10/2006

Lavanda impressa

medium_provence.jpgO quarto tinha cheiro de lavanda. Pela manha, quando imprimias em mim beijos, o aroma se espalhava pela casa. Nas noites de tempestade eu deixava a janela aberta e fazia uma pilha com todos os travesseiros possiveis, para ver os raios, o lago, o clarao da lua. E de manha, o presente que invadia o quarto e a sala era cor de lavanda. Quando um dia de sol se apresentava, sem ressacas da tempestade do dia anterior, eu fazia meu cafe bem forte e ouvia Madredeus. Sentada na poltrona da sala, logo cedo, o lago adivinhava minha solidao. Eu ja sabia que aquela placidez aparente era um turbilhao submerso. Uma paixao por vir. A ebulicao emergindo. A ressaca das horas escuras e faltas. Os silencios. Os sonhos em Provence. O mergulho lilas. O cheiro de beijos imaginados. A tormenta imaginaria. A resignacao pestilenta. A espera. As lavandas de teu corpo inventado. Tao inventado quanto esta paixao e aquela primavera.

 

04/05/2006

Aimee and Jaguar

medium_poster_under_licence.gif
Nao acentuei a paixao para nao correr riscos. E me perdi entre a realidade e o devaneio secreto e obscuro. Fazer-te meu seria o mesmo que esquecer. Assim como esqueco o que me pertence dentro e em mim. Vertem flores da parede e os acentos se perdem. O cansaço é tão pesado que me empurra para baixo. Dave disse que a rua em que caminho é cinza. E eu me pergunto, exatamente como na canção, como é que eu cheguei até aqui???

Tenho as cartas, ainda. Não sei o que devo fazer com elas. Deletá-las? Será que poderia fazer o mesmo com as memórias, com o silêncios, com as loucuras vividas e os rastros? Que faço com as imagens intermitentes? Como o cheiro de primavera que trouxe daí.

Foi convoluto o final do filme. Eu acho que chorei por querer estar agora como ela, e viver como elas as paixoes e primaveras em estado de graça. Uma queria que durasse para sempre, a outra queria todos os agoras, intensos e febris. Te julguei pelas nossas diferenças. Me julguei pelo medo que eu tive de voar. E deixei que me escapasses por não ter mais esperanças. Esperanças me irritam por terem essa gota de espera. Esse porvir que a gente não sabe se algum vai ser alguma coisa.

Acho que eu já não acredito em esperar. Só em viver. Viver os agoras. Lá fora.

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