10/24/2006

Eco

medium_modern-style-beardsley.jpgDorme oca em eco a voz do estranho. O rio continua brusco, as vielas estreitas, as passadas apressadas. Escuto tua voz para dar-te um nome, espalhar teu rosto no meu, espelhar minha alma na tua. Jogo xadrez na absurda calma de que sou feita. Horas de ventania, emprestadas do distante que me dilacera. Particiono as dores, para que austera, me sobre um tanto de dignidade. Te escuto falar, por horas a fio. E tua voz terna me volta quando longe. Rezo para que as horas do agora se estendam ao mais escondido. E eu pergunto: falas, rezas, te entregas? Se no afã de escutar-te perdi o sentido, e me deixei carregar no colo pelo veludo macio da voz que criaste para mim. Retomo em meus braços o destino que eu mesma designo meu. E te convido para que estejas perto: (do) coração selvagem.

 

Imagem: Isolda, de Beardsley.

07/05/2006

Los Amantes de Circulo Polar

Vou abrir um livro, numa página qualquer passar os olhos, pelos parágrafos, incerta, descansar os olhos. Voltar para o início no qual te encontrei. Nas primeiras letras, nos primeiro laço que tecemos, e com o qual nos enlaçamos. Nos doamos e com o tempo, que quase sempre nos engana, nos encontramos em tantas imagens. Imaginamos tanto. Tu me despiste de mim. Viste além e entendeste um entender maior que o da razão.

medium_losamantes.jpg

06/16/2006

Dance me to Paris

Dance Me To The End Of Love
Leonard Cohen


Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

05/10/2006

Teias

Não eras inesgotável em mim. Te exauri com meus afãs, com minhas sentinelas. Com minhas mãos. Te exauri em mim na plumagem soturna da noite. Nos céus vazios que encontrei quando parti. Te exauri depois de te esconder dos outros. De te fazer lembrança. No início pensei que fosses inexorável, que não podias partir de fato, que só poderias caminhar para longe naquela noite, mas ainda assim estarias aqui. Partiste. Partiste a esperança em dois. Silenciaste. Entre ficar atônita, desesperei. Era claro o dia. O sol me visitava, Gioconda me escutava. Sentada em minhas mãos, falando e contando, eu esqueci. A ambigüidade de ter que correr para longe, mesmo que estejas. E não foram teus acenos que me fizeram ir: foi uma memória que eu guardava comigo e que não me deixara descansar. Não te deixei dor alguma: vazio que és não compreendes como é estar cheio de alguém.

05/07/2006

Diálogos

Nem sempre são os diálogos que aproximam.

Contraste de sentidos.

Tua pele na minha.

Irradiando teu beijo no meu.

Ruptura.

Rutilância.

Afirmação.

Meus silêncios embotoam.

04/30/2006

Tradução

Entre revelar um segredo e outro: tradução. Tradução de. Rutilâncias. Quando é mesmo que eu costuro teus beijos com os meus? Quando foi que parti? Sei que estava frio e que não havia ânsia. Era uma calma quase sutil, não fosse minha pressa de ir embora. Não fosse que tinhas algo para dizer. Não fosse aquele último segundo, aquele último aceno quando me virei para ti e já não. O pó.

Traduzi saudade. Traduzi estar só. Eu que não falava uma palavra sequer desses idiomas. Eu que era analfabeta de estar sem ti. Aprendi o beabá da solidão e todos os seus silêncios e ostracismos. Voltei, me redimi. Sei mais de um idioma. Abraço a liberdade. Ao som de minha nudez diante do mundo: ar puro.

Ária I - Concerto em direção ao mar

Ouça Amor Demais - Elis Regina.

Eu inventei um mundo e uma mentira. Um contexto para que a gente exista, para que o caminho para o mar seja concerto. Ainda que cega e de pés descalços. Ainda que calada. Até que sejamos mar. Agridoce.

Ainda que caminhe um futuro incerto, uma intensa fusão sensorial me prende e me leva adiante. As paisagens de Cézanne me fazem encontrar o mar. E em (teus braços) concerto. O salino me fecunda. E a espera sem fim é em compasso com teu ritmo. De estar e ser concerto em direção mar.

 

04/24/2006

Nossas vidas imaginárias por Gláucia

Presumo que ficar vermelha e bobinha me autoriza a postar teu comentário.

 

medium_my_life_without_me.jpgSe escreve do que não foi dito, do que não foi feito, do que não foi tocado, do que não foi e, de outro modo, foi, no vasto terreno dos nossos sonhos. Gláucia Retamozo

Imagem: My Life Without Me. 

04/23/2006

Difusionismo

medium_chagall-eda-okada.2.jpgDentro do mar

Onírico e sem síntese

O meu beijo difusionista

encontra o teu

e de todo aquele céu e todo aquele

azul ainda intenso

nascem sonhos

para desabrochar

mini rosas

mini ventos

Uma dança no céu

mergulho

nas estrelas

vertigens

Imagem de Marc Chagall

Eda-Okada

 

04/05/2006

Aimee and Jaguar

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Nao acentuei a paixao para nao correr riscos. E me perdi entre a realidade e o devaneio secreto e obscuro. Fazer-te meu seria o mesmo que esquecer. Assim como esqueco o que me pertence dentro e em mim. Vertem flores da parede e os acentos se perdem. O cansaço é tão pesado que me empurra para baixo. Dave disse que a rua em que caminho é cinza. E eu me pergunto, exatamente como na canção, como é que eu cheguei até aqui???

Tenho as cartas, ainda. Não sei o que devo fazer com elas. Deletá-las? Será que poderia fazer o mesmo com as memórias, com o silêncios, com as loucuras vividas e os rastros? Que faço com as imagens intermitentes? Como o cheiro de primavera que trouxe daí.

Foi convoluto o final do filme. Eu acho que chorei por querer estar agora como ela, e viver como elas as paixoes e primaveras em estado de graça. Uma queria que durasse para sempre, a outra queria todos os agoras, intensos e febris. Te julguei pelas nossas diferenças. Me julguei pelo medo que eu tive de voar. E deixei que me escapasses por não ter mais esperanças. Esperanças me irritam por terem essa gota de espera. Esse porvir que a gente não sabe se algum vai ser alguma coisa.

Acho que eu já não acredito em esperar. Só em viver. Viver os agoras. Lá fora.

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