12/06/2005
Quando amanheço

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem
...
Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece
Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas
E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura
---
Quando amanheci e já era outono, o céu tinha um azul dolorido e abafado. Lia Benedetti na paz da casa alva e em meio à tranquilidade das ruas, eu estava deserta. Fagulhas de ti ainda acentuavam uma espera vaga, imprecisa. A espera de quem sabe que era tarde e que Benedetti era um aviso. Quando amanheci refeita do vinho, refeita de tua companhia, estática com minha dor que me recolheu ao ninho, o silêncio permeava não somente as manhãs em Lisboa, não somente a sodade Caboverdiana, nem tão somente Porto Alegre. Quando do nosso último abraço, rasgou-se a fibra de eu estar em ti, anoiteci esperas e confrontos. Lembro ter hesitado em acalantar a noite, e tentando ficar, eu era quem devia ser. Mas enfrentei a dor. Sem resignar-me porque isso para mim é estrangeiro e minhas mãos não alcançam. Quando amanheci em Porto Triste todos não estavam. Havia um ele, mais estrangeiro que a fuga, que a vinda. Quando amanheci sem sentido, escolhendo o longe e o parco, de viver a mínguas, eu quis todas primaveras presentes e todos as ruas com jacarandás amarelos e roxos. Eu então amanheci chances poucas de te ver e te ouvir. E não precisavas estar comigo, eu tinha-me aqui neste mar calmo e quieto, nestas águas que me encontro por não saber ser diferente. Quando amanheci sem chão, estava centrada em pragmatismos, dores da falta de cheiros que preciso sentir para me orientar. Estavas de costas quando te vi pela última vez. Caminhavas para longe, entravas na distância. E no avião, eu ia rumo ao vácuo.
Imagem: Maria João Duarte. Título: E nasce mais um dia. Fonte: A Thousand Images.
12:55 Posted in De paixões e primaveras, Music | Permalink | Comments (2) | Email this
11/29/2005
O Olhar cantado por Madredeus

Letra de Pedro Ayres Magalhães
Musica de José Peixoto
Olha para mim
Nos olhos
Agora
Olha para mim
Sereno
olhar
Anda ver aqui
Nos olhos
O mar
Olha para mim
Com o teu
Olhar
Vem partir na sensação
De que vamos viajar
Só nós dois na ilusão
De tanto amar
Vem daí com a tua mão
Que eu quero acarinhar
Vem contar-me essa visão
Do teu olhar
Imagem de Teresa Rosa, fisgado do Thousand Images
12:45 Posted in Music | Permalink | Comments (1) | Email this
11/21/2005
Polvo de Estrellas de Jorge Drexler
Se aprende en la escuela,
se olvida en la guerra,
un hijo te vuelve a enseñar.
Está en el espejo,
está en las trincheras, parece que nadie parece notar
Toda victoria es nada
Toda vida es sagrada
Un enjambre de moléculas
puestas de acuerdo
de forma provisional.
Un animal prodigioso
con la delirante obsesión de querer perdurar
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.
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